Exposição Cassio Vasconcellos

 

ENTRE O REGISTRO E A  SUBVERSÃO DO ARQUIVO
Por Daniela Bousso

 

 

A obra de Cássio Vasconcellos caracteriza-se como um trabalho de ultrapassagem das fronteiras entre fotografia e  outros meios e insere-se em um campo pós-disciplinar de operações artísticas.  O artista enceta o  experimental como ponto de partida e designa um território de atuação que reúne técnica e subliminaridade.  O seu modo de experimentar as imagens consiste em uma reorganização do imprevisível numa minunciosa trama de relatos. Na mediação imposta pela revisão constante, eis que surge o resguardo de um patrimônio vivo que subjaz em franca releitura, com a persistência da técnica aliada ao universo do fantástico.

Esta exposição nos coloca diante de dois momentos que configuram uma passagem significativa na produção artística de Cássio Vasconcellos. Num primeiro conjunto de obras, a série dos  “Coletivos” apresenta  quatro obras: Carros, Aeroporto, Praia, Arizona II.  São  imagens  em grandes dimensões, caracterizadas pela crítica consciente ao excesso produzido pela sociedade globalizada.  E por meio delas o artista ocupa praias desertas, até que não sobre um espaço sequer, amontoa sucatas e projeta um aeroporto imaginário, mas com todos os seus componentes espaciais rigorosamente dentro da escala; nesta obra podemos notar, ainda, a presença de desenhos em formato de neurônio, uma direta alusão às sinapses, às formas de comunicação em redes, a hubs, a dentritos e corpos celulares.

Estas são algumas das realidades simuladas pelo artista,  as quais  se opoem à ideia de sustentabilidade e traduzem um comentário crítico e mordaz sobre as interferências da mão humana no planeta.  São lugares aonde não queremos estar, nos quais detestamos aquilo que vemos e vivemos; desconexões que temos que digerir.

É aí que Cássio promove uma passagem em sua obra: muda o  objeto de sintaxe, sai do repertório crítico sobre a ação do homem no mundo, como se quisesse promover um esvaziamento de tudo o que se vê no espaço urbano, sair do sufoco e conquistar lugares limpos, isentos, florestas em estado de pureza ainda.

No segundo conjunto de obras, uma nova série nos faz defrontar com a  visão dos fatos, melhor dizendo  uma revisão, a partir de uma série de operações transtradicionais, aonde  a intervenção entre o meio fotográfico e a computação digital  permite a construção de um mundo de fantasia.

Ao inspirar-se nas imagens pictóricas produzidas pelos  artistas viajantes que estiveram no Brasil no início do século XIX, visita florestas da Amazonia, a mata Atlântica de São Paulo e do Rio de Janeiro e produz uma série de tomadas in loco. Esta é uma escolha, uma maneira de produzir uma ecologia cultural, de reconstruir um sistema de identidades e criar novas imagens, recuperando parte da sua ancestralidade: o seu tataravô era Ludwig Riedel, o botânico que foi diretor da Seção de Botânica do Museu Nacional do Rio de Janeiro  e integrou a expedição Langsdorff na década de 1820. Cássio completa cinquenta anos de idade por ocasião desta exposição e questões de raízes e identidade provavelmente começam a ter mais importância nesta fase de maturidade.

Uma minunciosa pesquisa antecedeu as tomadas fotográficas que constituem a série “Viagem Pitoresca pelo Brasil”,  baseada, entre outras,  na obra “La foret vierge du Brésil”, de autoria do Conde de Clarac.  Nesta série absolutamente planejada, ele opera vários processos de transformação da imagem: ao fotografar, a matéria prima é captada para acertar o processo posteriormente. Planejamento, seleção, interferência e seleção final, são etapas que respondem perfeitamente ao seu repertório atual e o seu desejo é remeter-nos à mesma sensação de emoção que os pintores viajantes como Rugendas, Taunay, Debret, Hercules Florence, Martius e Clarac tiveram ao visitar o Brasil.

Para chegar a estas imagens  o artista percorreu caminhos arriscados, que ultrapassaram o que deve ser feito – em teoria – com o meio fotográfico e com o digital,  este é o campo pós- disciplinar de sua ação.

“Fiz tudo errado, os arquivos não foram feitos para aguentar todos os absurdos a que os submeti. Eu atuei para subverter a lógica do arquivo inúmeras vezes. Coisas como mudar o tempo de exposição, fotografar com outra sensibilidade que não a supostamente correta…”

Enfim, Cássio comete erros calculados a partir da longa experiência fotográfica e de pesquisas preliminares, para escapar ao manual do domínio da técnica, para alcançar um caminho oposto ao do truque.  Ao retomar a imagem ele produz a impressão de um gesto litográfico:  desenha no computador folha por folha, a luz, são horas a fio desenhando  – um processo digital artesanal aonde a ação do dispositivo é completada manualmente – como nos primórdios da fotografia, quando os fotógrafos desenhavam sobre o papel fotográfico para ajustar contornos, cores.

“Busco sempre o que sai um pouco da fotografia,  o que pode designar um outro caminho que não o real”, afirma o artista.

De fato, a intersecção entre imagem real e imaginária cria uma influência recíproca entre o registro fotográfico e a manipulação digital, até a completa subversão do arquivo.

Nesta reencenação da obra de Clarac, Cássio evoca a  nossa consciência sobre crise ecológica, sobre as questões de transbordamento do mundo atual. Ao reorientar o seu processo fotográfico, ao mesmo tempo em que se renova  produz ficção e fabulações. Por meio destas florestas,  ele nos conduz a uma ecologia cultural a respeito do possível apagamento de um universo intocado quiçá,  por suposto em risco de dissipação, matéria de interrogação suspensa.



 

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