Mario Cravo Neto

Mario Cravo Neto nasce em 20 de Abril de 1947 na cidade do Salvador, Bahia, onde hoje vive e trabalha. Em 1964, aos 17 anos, muda-se para a Alemanha, quando seu pai, o escultor Mario Cravo Jr., participa do programa Artists in Residence, em Berlim. É naquele período que Cravo Neto dá início as suas experiências com escultura e fotografia.

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No ano de 1965 retorna ao Brasil, é premiado na I Bienal de Artes Plásticas da Bahia e, ainda naquele ano, faz sua primeira exposição individual. Entre 1968 e 1970, vive em Nova Iorque, onde estuda na Art Student League, sob a orientação do artista plástico Jack Krueger, um dos precursores da arte conceitual. Em 1970 publica sua primeira fotografia fora do Brasil no catálogo da exposição Information, Museu de Arte Moderna de Nova Iorque. Ainda em Nova Iorque produz a série de fotografias em cores intitulada On the Subway, publicada na revista Camara 35, e fotografias em preto-e-branco que abordam o aspecto da solidão humana na grande metrópole. É em seu estúdio no Soho que desenvolve, paralelamente à fotografia, as esculturas em acrílico baseadas no processo do “terrarium”, envolvendo o crescimento de plantas vivas em ambientes fechados. Na XI Bienal Internacional de São Paulo, em 1971, em sala especial, apresenta pela primeira vez a instalação das esculturas vivas produzidas em Nova York e recebe o Prêmio de Escultura Governador do Estado de São Paulo. Durante os anos de 1971 a 1974, dedica-se à criação de projetos “em sítio” (land art), interferindo diretamente na natureza do sertão baiano e no perímetro urbano de sua cidade natal. A documentação sistemática desses trabalhos lhe proporciona intimidade com a linguagem cinematográfica. É nesse contexto que realiza diversos curtas-metragens e que, em 1976, recebe o Prêmio Nacional da Embrafilme, pela direção de fotografia do longa-metragem Ubirajara, do diretor André Luis Oliveira. Em razão de um acidente automobilístico, em 31 de março de 1975, é forçado a permanecer com ambas as pernas imobilizadas por um ano. Esta circunstância, porém, não interrompe sua produção. Nesse período trabalha em maquetes de seus projetos tridimensionais e volta a sua atenção para o retrato em estúdio, para a apropriação de objetos e para a utilização desses objetos em suas instalações e nas composições das fotografias. Surge assim um trabalho único, autoral, no qual Cravo Neto cria, a partir da integração que promove entre personagem e objeto, o que podemos chamar de fotografias-esculturas em preto-e-branco. São dessa fase o Ninho de Fiberglass, 1977, e Câmaras Queimadas, 1977, criações emblemáticas, expostas respectivamente nas XIV e XVII Bienal Internacional de São Paulo. Essas obras são mais tarde comentadas por Edward Leffingwell, no prefácio do livro The Ethernal Now, 2002, a mais completa monografia de Mário Cravo Neto, contendo 136 fotografias em preto-e-branco em estúdio. Nas palavras de Lefingwell, “o elo principal dentre os projetos citados, as instalações que se seguiram e as fotografias que o tornaram conhecido, foi a apresentação de um translúcido ninho feito com filamentos de fiberglass, catados por algum arquiteto desconhecido: uma ave da vizinhança de seu estúdio na Cidade do Salvador”.

Mesmo antes da publicação do The Eternal Now, as fotografias em preto-e-branco são amplamente mostradas em diversas exposições e editadas em vários livros e catálogos. Das várias exposições, destacam-se: em 1988, Pallazo Fortuny, Veneza; em 1992, Witkin Gallery, Nova Iorque e Houston FotoFest, Houston; em 1995, Museu de Arte de São Paulo, São Paulo; em 1998, Fahey Klein Gallery, Los Angeles e Photo España, Real Jardín Botânico de Madrid, quando o artista mostrou impressões fotográficas em grande formato, expostas ao ar livre.

Em 1994 publica Mario Cravo Neto, Edition Stemmle, Zürich, que acompanha uma exposição individual no Frankfurter Kunstverein, Frankfurt, com curadoria e edição de Peter Weiermair, sendo seu primeiro livro com fotografias em preto-e-branco editado fora do Brasil. No ano de 2000 viaja à Dinamarca a convite de Tove Thage, diretora do Nationalhistoriske Museum på Frederiksborg, Hillerød, para fotografar os mais importantes coreógrafos e bailarinos do Danish Royal Ballet e realizar uma exposição no mesmo museu. Simultaneamente à produção em estúdio, Cravo Neto vive e retrata em cores sua cidade, Salvador, terra do sangue misturado, onde convivem santos católicos e deuses da África — a cidade do São Salvador da Baía de Todos os Santos — território único e farto que instiga o artista e é tema de sete dos seus livros, publicados entre 1980 e 2000. Desses livros, os mais significativos são: Cravo, Áries Editora, 1983, “Mario Cravo Júnior visto por Mario Cravo Neto representa uma realização plástica e interpretativa das mais sensíveis como livro de fotografia de esculturas.” (MCJ); Exvoto, Áries Editora, Salvador, 1986, livro que retrata os ex-votos do sertão baiano, objetos oferecidos aos santos em gratidão a graças alcançadas; Salvador, Áries Editora, Salvador, 1999, íntimo retrato de sua cidade e Laroyé, Áries Editora, Salvador, 2000, onde Exu é o cenário encarnado nos corpos em movimento, livro oferenda ao polêmico personagem mítico da cultura africana. “Esú, baía do corpo, navio solitário, atracado em todos nós.” (MCN)

Algumas viagens marcam especialmente a produção de Cravo Neto, seja de maneira objetiva, gerando um livro ou uma mostra, seja de maneira subjetiva, fazendo conexões entre os mundos interior e exterior, fronteira que não se estabelece no seu trabalho. A experiência de um mês a bordo de um navio-hospital da Marinha do Brasil no rio Solimões, Amazônia em 1990, ou mesmo a ida a Luanda, Angola, para produzir as fotografias do livro Angola e a Expressão da sua Cultura Material, FEO, Salvador, 1991, que lhe pôs em contato com o acervo do Museu Nacional de Antropologia de Angola, certamente fazem parte do percurso que o leva, em 1998, ao interior dos terreiros. É a partir desse ano que Cravo Neto se aproxima do culto afro-baiano e, por sete anos consecutivos, se dedica a fotografar e gravar em vídeo a vida e os rituais do culto, em especial do terreiro Ilé Àse Ópó Aganju. Dessa fase o artista publica três livros, em todos fazendo uso da composição mista de imagens em cor e em preto-e-branco para abordar, com a densidade de um iniciado, a religiosidade afro-baiana. Em 2003, apresenta a instalação e o livro Na Terra Sob Meus Pés, CCBB — Rio de Janeiro, com curadoria de Ligia Canongia. Trance-Territories, Verlag Das Wunderhorn Heidelberg, 2004, livro e instalação integram a mostra Black Gods in Exile de Pierre Verger no Dahlen Ethnologisches Museum, Berlin, curadoria de Michael Toss. E o seu mais recente livro, O Tigre do Dahomey – A Serpente de Whydah, Áries Editora, Salvador, 2004, editado por ocasião da mostra de inauguração do novo espaço da Paulo Darzé Galeria de Arte, Salvador, e posteriormente exibido no Museu Afro-Brasil, São Paulo, em 2005. “Viver é sentir-se perdido”, pensamento de Sören Kierkegaard, foi certamente o sentimento dos que visitaram a videoinstalação Somewhere Over The Rainbow — La Mer, 2005, com curadoria de Solange Farkas, que consistia de imagens das águas do mar projetadas nas paredes dos 400m2 da sala principal do Museu de Arte Moderna da Bahia, antigo engenho de açúcar do século XVI, construído por escravos negros em cima da Baía de Todos os Santos. Transitando em águas profundas do mundo criativo, do inconsciente, Mario Cravo Neto produz uma obra e expressa a cultura de sua terra. Este texto é apenas uma tentativa de síntese dessa impressionante produção que, até o presente, gerou a edição de 14 livros em diversos países; inúmeras matérias em jornais e revistas; mostras individuais e coletivas no Brasil e no exterior; nove prêmios; a participação em coleções de diversos museus; fazendo deste artista referência em dezenas de publicações sobre fotografia, além da entrada para a Encyclopédie Internationale des Photographes, Carole Naggar, Édition de Seuil, Paris, 1982 e Encyclopédie Internationale des Photographes, 1939-1984, Michel Auer, Editions Camera Obscura, Berne, 1984 e para o Dictionnaire Mondial de Photographie, Larousse, Paris, 1994. Imerso no mundo mítico e na natureza de seu país, Mario Cravo Neto dá continuidade a sua atividade criativa.

 

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